O meu avô era médico. E um dos piores “doentes” que já vi. Por exemplo, depois de tirar um rim, só bebia as litradas de água obrigatórias porque alguém o obrigava. Um médico que não segue recomendações dos outros médicos não parece assim uma coisa muito má. Continua a ser bom médico. Aliás, é quase coisa de super-herói… Mas e um psicólogo? Ou psiquiatra, ou qualquer profissional da saúde mental? Se alguém nos souber ansiosos, deprimidos, com uma fobia, ou insónias, se roemos as unhas, ou não conseguimos deitar nada fora, se acabámos de nos divorciar, ou morreu-nos a avó, se vemos pornografia, ou discutimos com o marido no supermercado, ou o filho faz birras no supermercado, ou não temos filhos, ou somos gays, ou não falamos com o nosso pai, ou….

Há um motivo para os psicólogos/psicoterapeutas não falarem da sua vida pessoal aos clientes: a terapia é do cliente, não é nossa. Estamos lá para ouvir e centrarmo-nos naquilo que faz com que aquele tempo exista: o cliente e o seu desejo de mudança. Mudar o foco para o terapeuta é sair do “contrato terapêutico”. Talvez passasse a ser o terapeuta a pagar ao cliente?

Por outro lado, a psicanálise ensinou-nos que a projecção funciona melhor numa “tela branca”. O analista dever-se-ia apresentar como essa tela onde o paciente projectaria os seus conteúdos internos, e esses ficariam assim visíveis para o analista e serviriam de material de trabalho. Falo no passado, mas isto ainda é assim. Só que sabemos que não há pessoas-telas-brancas. As características do terapeuta estão lá: é homem/mulher, tem certa idade, sorri mais ou menos, tem determinado tom de voz… Na psicanálise (ou na psicoterapia psicanalítica) a relação é o chão onde tudo acontece, e só há relação entre duas pessoas. Mas esta relação é muito especial, diferente de todas as outras, porque tem um propósito, existe enquanto serve esse propósito, e implica uma troca: o cliente paga e o terapeuta trabalha.

Mas depois há a curiosidade. Aquela pessoa a quem os clientes contam tanto, não conta nada de si. E às vezes há clientes que imaginam (ou desejam) que o terapeuta é perfeitamente saudável, nunca sofreu com nenhuma perturbação mental, não tem dores emocionais, encara as vicissitudes da sua vida com toda a sabedoria que mostra ter sobre as vidas dos outros. E às vezes há clientes que descobrem que não é bem assim. Mas ao contrário do médico super-herói, o terapeuta perde a sua aura de perfeição e torna-se simplesmente humano. E o cliente pergunta-se: mas então se ele é humano como eu, como me pode ajudar?

Será a terapia algo tão desnivelado que alguém tem de estar acima e outro abaixo?

No reverso da medalha – a piada de que todos os psicólogos são loucos. Há, até dentro da profissão, quem nos (se) ache loucos, por escolhermos lidar diariamente com os cantos mais escuros e as dores mais fundas das almas de quem nos procura. Porque será que nos tornamos terapeutas? Ninguém acha o médico louco por lidar com a doença e a morte, ninguém se pergunta porque escolheu ser médico.

Seremos loucos? Seremos seres superiores ao comum dos humanos?

Conta-nos a história sobre grandes nomes da psicoterapia (começando pelo próprio Freud), e a investigação científica mais actual, que existe uma considerável prevalência de traços patológicos nos psicólogos pelo menos em alguns períodos das suas vidas. As associações científicas de psicoterapia têm um lado de formação a que ou chamam desenvolvimento pessoal ou simplesmente chamam terapia: um terapeuta faz terapia para se tornar terapeuta. Nas terapias psicanalíticas, isto tem particular importância porque o terapeuta é, em si mesmo, um instrumento de trabalho – o que sente com o cliente, as memórias que aparecem, as reacções internas que tem, tudo isto é material de trabalho.

O fascinante da profissão é isso mesmo: somos instrumento da mudança de quem nos procura. Vemos as pessoas à nossa frente mudarem, crescerem, fazerem o seu percurso, aproveitando a relação terapêutica como alavanca. E antes de o fazermos, vimo-nos a nós próprios a passar por essa mudança. Sabemos o que é estar do outro lado, com todas as diferenças e especificidades. Há quem defenda que os terapeutas melhores são os que passaram por períodos de doença mental. Porque conhecem o sofrimento, o sentimento de impotência, e sabem que é possível mudar. Porque se oferecem como humanos parceiros nesse processo de mudança, não como anjos perfeitos e misericordiosos nem como loucos que gostam de chafurdar no lodo. Porque mesmo calando as suas próprias histórias, estão COM o cliente. Ao lado. Porque o caminho é dele. Nós fazemos o nosso.