O caso da “sogra”

Na visita à minha sogra, com 88 anos e diagnosticada com uma demência, aconteceu o que vou partilhar por julgar ser uma história semelhante à de muitas pessoas.                                                                                                                           Assim que lhe dei um beijo, perguntou-me:
– Quem sou eu? Já não me conheço!
– Porque é que estou aqui?
– Quem és tu? Somos alguma coisa uma à outra?
Respondi, repetindo o seu primeiro nome, até que, com esforço, foi capaz de repetir os seus apelidos. Expliquei-lhe que vivia numa casa de saúde, para ter todos os cuidados de que precisa. E, por fim, disse-lhe quem era e o parentesco que nos une, sou uma das suas noras.
Depois de me ouvir com uma expressão muito séria e de olhos muito abertos disse:
– Se sou ainda uma cachopa, como posso ser tua sogra? Estás a enganar-me porquê?
Espontaneamente soltei uma gargalhada, mas a situação não tinha graça nenhuma. A verdade é que não sabia o que dizer, nem mesmo o que fazer.
Comecei por lembrar-lhe a sua idade, mas ela não ficou convencida. Hesitei em tirar-lhe uma foto com o telemóvel, até que acabei por fazê-lo. Mostrei-lhe, não se reconheceu, mas quis saber se era suposto conhecer aquela pessoa e eu, com medo da sua reação, respondi que não.
Pensei em arranjar algumas fotos antigas e levar-lhe na próxima vez, mas dado a reação que teve, não sei se será pior quando reparar que não conhece ninguém, ficando ainda mais deprimida.
Dói tanto ver alguém perder a identidade e a consciência da vida real. Dói ainda mais ver que não nos reconhece.          O que fazer? Como lidar com uma realidade destas? Que atitudes devemos tomar?

Vou responder às suas questões, não por ter as respostas certas, mas por ter uma experiência profissional que me ajuda nesta matéria.
O diagnóstico de um quadro de demência tem um impacto tremendo no paciente, se este o compreender, e nos seus familiares, amigos e cuidadores, pela noção de desamparo e impotência que este provoca.
Ainda assim, e porque a realidade vai provocando o ajustamento possível, família e cuidadores aprendem a adaptar-se e a lidar com esta condição. Relativamente à situação descrita, posso dar-lhe algumas directivas…
Por exemplo, deve tentar responder às questões que lhe são colocadas, com serenidade, de forma simples, recorrendo a explicações aceitáveis e satisfatórias para o doente. É normal se tiver que as repetir muitas vezes. No entanto, devem ser evitadas novas informações, que por não serem assimiladas, podem ser desestabilizadoras para o paciente.
Embora a tendência natural seja contrariar as respostas no momento em que a senhora rejeita as explicações, a mesma não deve ser contrariada. Deve dar a entender que concorda com o que diz e que esta tem razão, seja qual for a situação e, principalmente, não provocar sentimentos de desconforto ou embaraço.
O confronto entre a fotografia e imagem mental de si própria, mais nova, pode servir para comprovar um dos sintomas da Demência (desorientação temporal). É mais importante a transmissão de bem-estar e autonomia, preferencialmente, evitando as questões, e usando afirmações, gestos e/ou expressões, que estimulem o paciente a participar na conversa.
Qualquer momento com a senhora deve ser aproveitado, como forma a aprender a lidar com as alterações e a manter a relação. Ela é a sua própria especialista e não irá encontrar ninguém melhor que ela.

Dra Sofia Ribeiro